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Dominar os números é dominar o negócio

Ismael Cardoso · 9 min de leitura

Empresários conversando em mesas durante encontro do HOK Club

Em encontro do HOK Club, o contador Ismael Cardoso mostrou como interpretar DRE, Balanço Patrimonial, Fluxo de Caixa e indicadores financeiros para transformar dados contábeis em decisões mais assertivas.

Empresas crescem quando conseguem vender mais, operar melhor e aproveitar boas oportunidades. Mas nenhuma dessas decisões pode ser sustentável sem uma compreensão clara dos números que sustentam o negócio.

Foi com essa provocação que o contador Ismael Cardoso conduziu um dos encontros do HOK Club, trazendo uma análise prática sobre os principais demonstrativos financeiros e mostrando como transformar informações contábeis em ferramentas de gestão.

O encontro teve como foco a interpretação de Balanço Patrimonial, DRE, Fluxo de Caixa, EBITDA, margem de contribuição, ponto de equilíbrio e índices de liquidez, conectando cada um desses dados à realidade cotidiana de empresários e gestores.

O empresário precisa respirar números

Logo na abertura do encontro, uma provocação importante foi feita: quanto os empresários realmente pensam sobre finanças, organização financeira e números dentro de suas empresas?

Na rotina, é natural ser puxado pela operação, pelas vendas, pelos clientes e pelos problemas do dia a dia.

Mas crescer sem criar rituais de acompanhamento financeiro pode significar conduzir o negócio sem saber exatamente se ele está indo na direção planejada.

A analogia utilizada foi simples: se o planejamento estratégico representa o destino de uma viagem, os indicadores financeiros são os ponteiros do painel.

Eles mostram se existe combustível suficiente, se algo está aquecendo além do esperado e se a empresa continua na rota.

Por isso, reuniões mensais e trimestrais de acompanhamento deixam de ser burocracia e passam a ser instrumentos de gestão.

Saldo bancário não significa saúde financeira

Um dos alertas feitos por Ismael foi sobre um comportamento ainda bastante comum: analisar a empresa apenas pelo saldo bancário.

Dinheiro em conta não representa, sozinho, a saúde de um negócio.

Uma empresa pode apresentar saldo positivo hoje e ter compromissos futuros capazes de consumir rapidamente esse recurso.

Da mesma forma, pode faturar muito e ainda assim não gerar caixa suficiente para honrar despesas operacionais.

Ismael destacou que, quando uma empresa precisa recorrer a crédito para pagar despesas recorrentes, como folha ou compromissos operacionais, isso já pode indicar a necessidade de uma análise mais profunda sobre margens, rentabilidade e capacidade de geração de caixa.

Por isso, gerir uma empresa exige mais do que perguntar:

“Quanto temos na conta?”

É preciso perguntar também:

“Quanto geramos?”

“Quanto devemos?”

“Quanto precisamos pagar?”

“Quanto realmente sobra da operação?”

Balanço Patrimonial: a fotografia da empresa

Entre os demonstrativos abordados, o Balanço Patrimonial foi apresentado como uma ferramenta fundamental para compreender a estrutura financeira e patrimonial do negócio.

De forma prática, ele reúne:

Ativos: tudo aquilo que a empresa possui ou tem a receber, como caixa, bancos, estoques, clientes, máquinas, equipamentos e outros bens.

Passivos: todas as obrigações, como fornecedores, impostos, empréstimos e demais compromissos.

Patrimônio líquido: aquilo que representa a construção patrimonial do negócio ao longo do tempo, considerando capital investido, lucros e prejuízos acumulados.

Mais do que um documento contábil obrigatório, o Balanço permite visualizar a evolução da empresa.

Ismael reforçou que, embora exista a obrigação de fechamento anual, nada impede — e muitas vezes é recomendável — acompanhar essas informações mensalmente, criando uma leitura muito mais próxima da realidade do negócio.

DRE: entender se a operação realmente gera resultado

A Demonstração do Resultado do Exercício, a DRE, foi outro ponto central.

Ela organiza receitas, custos, impostos, despesas operacionais e o resultado final da empresa.

Na prática, responde uma pergunta essencial:

A operação está realmente gerando resultado?

Segundo Ismael, analisar esse demonstrativo permite entender quanto a empresa vende, quanto custa entregar aquilo que vende e quanto permanece após todas as despesas relacionadas à operação.

A DRE também ajuda o empresário a identificar se o crescimento das vendas está de fato criando valor.

Porque existe uma realidade desconfortável:

vender mais nem sempre significa ganhar mais.

Se os custos e despesas estiverem descontrolados, aumentar o volume pode apenas acelerar um problema já existente.

EBITDA: capacidade de geração da operação

Outro indicador bastante discutido no encontro foi o EBITDA.

Ele ajuda a compreender a capacidade operacional da empresa antes de determinados impactos financeiros, tributários, de depreciação e amortização.

Ismael chamou atenção para o fato de que esse indicador vem sendo utilizado por instituições financeiras e pelo mercado justamente porque ajuda a demonstrar a capacidade do negócio de gerar resultado a partir da própria operação.

Se o resultado operacional está constantemente pressionado, isso exige decisões.

Reduzir custos?

Aumentar margem?

Rever preço?

Modificar a estrutura?

Investir ou preservar caixa?

O indicador não toma a decisão pelo empresário.

Mas oferece informação para que a decisão deixe de ser baseada apenas em percepção.

Margem de contribuição: quanto cada venda realmente deixa para a empresa?

Outra métrica fundamental é a margem de contribuição.

Ela mostra quanto cada produto ou serviço efetivamente contribui para pagar os custos fixos da empresa e gerar resultado.

Esse entendimento muda completamente a leitura sobre vendas.

Um produto pode apresentar grande faturamento e, ainda assim, deixar uma margem insuficiente para sustentar a operação.

Por isso, Ismael destacou que não basta ter margem positiva.

Ela precisa ser saudável o suficiente para garantir competitividade, crescimento e capacidade de reinvestimento.

Essa análise também ajuda a responder perguntas importantes:

Qual produto merece mais esforço comercial?

Qual serviço está comprimindo nossa margem?

Onde estamos vendendo muito, mas ganhando pouco?

Onde existe espaço para reajuste?

Fluxo de Caixa: lucro e dinheiro são coisas diferentes

Talvez uma das diferenças mais importantes trabalhadas no encontro tenha sido a separação entre lucro e caixa.

Uma empresa pode apresentar lucro em sua DRE e, ainda assim, enfrentar dificuldades financeiras.

Como?

Porque o dinheiro pode não ter entrado.

O cliente pode estar inadimplente.

Os prazos de recebimento podem ser longos.

Os fornecedores podem exigir pagamento antes de a empresa receber por suas vendas.

Nesses casos, a operação pode parecer saudável no papel, mas exigir capital de giro para continuar funcionando.

O Fluxo de Caixa mostra exatamente isso: quanto dinheiro efetivamente entra e quanto efetivamente sai.

Um exemplo apresentado durante o encontro ilustra bem a situação.

Se uma empresa compra de seu fornecedor para pagar em 30 dias, mas vende ao cliente com prazo de 60 dias, ela precisará financiar parte da própria operação.

A questão passa a ser:

A empresa tem caixa para sustentar esse intervalo?

É por isso que Balanço, DRE e Fluxo de Caixa não devem ser analisados isoladamente.

Eles se complementam.

Ponto de equilíbrio: quanto precisamos vender para não perder dinheiro?

Outro indicador apresentado foi o ponto de equilíbrio.

Em termos simples, ele mostra quanto a empresa precisa vender para pagar todos os seus custos e despesas.

Até esse ponto, a empresa está cobrindo sua estrutura.

Depois dele, começa efetivamente a gerar resultado.

Esse dado é especialmente importante para a definição de metas comerciais.

Ismael trouxe uma provocação relevante: muitas empresas criam metas sem sequer saber qual é seu ponto de equilíbrio.

Nesse cenário, uma meta considerada “desafiadora” pode, na prática, continuar abaixo do mínimo necessário para manter a empresa sustentável.

Conhecer esse número permite construir metas de vendas mais realistas e conectadas à realidade financeira do negócio.

Liquidez: capacidade de honrar compromissos

Os índices de liquidez também foram apresentados como instrumentos importantes para compreender a segurança financeira da empresa.

De maneira simplificada, eles ajudam a responder:

Para cada R$ 1 de dívida, quanto a empresa possui disponível para cumprir seus compromissos?

Quando esses indicadores ficam abaixo de níveis considerados seguros para a realidade da empresa, qualquer imprevisto pode comprometer sua capacidade de pagamento.

O índice de liquidez corrente, por exemplo, relaciona recursos de curto prazo com obrigações também de curto prazo.

Mais uma vez, o objetivo não é transformar o empresário em contador.

É permitir que ele compreenda os números suficientes para fazer as perguntas certas.

Dados precisam virar rituais de gestão

Um dos pontos mais práticos do encontro foi a defesa da criação de uma rotina de análise.

Não adianta possuir uma contabilidade estruturada, um ERP robusto e dezenas de relatórios se ninguém olha para as informações.

O empresário precisa criar uma agenda recorrente para conversar com o financeiro e com a contabilidade.

Segundo Ismael, a ausência desse ritual faz com que a operação sempre encontre uma forma de ocupar todo o tempo disponível.

E quando não existe uma agenda dedicada aos números, o estratégico acaba sendo constantemente adiado.

A proposta apresentada foi simples e prática:

começar com um raio X do negócio;

estruturar uma DRE gerencial;

identificar o ponto de equilíbrio;

aprofundar o diagnóstico;

e, a partir dos dados, tomar decisões concretas sobre custos, despesas e crescimento.

Acompanhar um único mês não é suficiente

Outro aprendizado importante foi a análise horizontal.

Em vez de observar apenas o número atual, a empresa deve acompanhar sua evolução ao longo dos meses.

Colocar os dados lado a lado permite identificar tendências, sazonalidades, aumentos de custos, redução de margens e mudanças no comportamento do negócio.

Para Ismael, Balanço, EBITDA, Fluxo de Caixa, ponto de equilíbrio e outros indicadores precisam ser acompanhados de forma recorrente.

A empresa é um organismo vivo.

Compra.

Vende.

Paga.

Recebe.

Investe.

Contrata.

E muda todos os dias.

Por isso, os indicadores também precisam ser acompanhados continuamente.

O contador precisa ser parceiro de gestão

O encontro também trouxe uma provocação sobre a relação entre empresários e seus escritórios contábeis.

A contabilidade possui uma quantidade enorme de informações capazes de ajudar na gestão.

Mas, em muitos casos, esses dados ficam restritos ao cumprimento das obrigações fiscais.

A orientação foi direta: converse com sua contabilidade.

Pergunte.

Solicite relatórios.

Analise números.

Use esse parceiro como uma fonte de inteligência para o negócio.

O mesmo vale para o financeiro interno.

O papel desses profissionais não deve ser apenas registrar o que aconteceu.

Eles também podem ajudar o empresário a compreender por que aconteceu e quais decisões precisam ser tomadas a partir dali.

Olhar o retrovisor para enxergar melhor o para-brisa

Uma das analogias utilizadas por Ismael sintetiza bem todo o encontro.

Os dados históricos funcionam como o retrovisor de um carro.

Ele é menor do que o para-brisa porque não devemos dirigir olhando apenas para trás.

Mas precisamos observar o que aconteceu para tomar melhores decisões sobre o caminho que está à frente.

Os números contam histórias.

Mostram padrões.

Apontam desvios.

Revelam riscos.

E ajudam a identificar oportunidades.

A partir deles, é possível comparar, analisar e decidir.

Gestão no escuro ou gestão baseada em dados?

Ao final do encontro, Ismael resumiu a principal escolha que todo empresário precisa fazer:

“Você pode continuar gerenciando no escuro, torcendo para sobrar dinheiro no final do mês, ou pode acender uma luz e dominar os números.”

Compreender DRE, Balanço Patrimonial, Fluxo de Caixa e indicadores financeiros não significa transformar empresários em especialistas contábeis.

Significa dar a eles condições de liderar melhor.

De fazer perguntas melhores.

De planejar.

De identificar problemas antes que eles cresçam.

E de transformar informação em decisão.

No fim, os números não existem apenas para mostrar o que aconteceu.

Eles existem para ajudar a decidir o que deve acontecer daqui para frente.

O HOK existe para líderes QUE QUEREM VOAR ALTO.